Nós, homens, adoramos aparelhos. Gadgets de todo o tipo. Coisas que fazem coisas. Não coisas que "são giras", como as venusianas. Gostamos de telemóveis, computadores, carros, motos, televisores, 3d, carros telecomandados, aviões, armas de airsoft ou paintball. Aparelhos de todo o tipo, que se mexam, tenham luzes, tenham ecrãs. As venusianas gostam de roupas, malas, perfumes, decorações. Ou seja, "coisas giras".
Mas há um único aparelho que não entendemos o funcionamento, que não entendemos para que serve, que ninguém pode sequer desejar comprar: um complicómetro. Vem implantado na caixa craniana das venusianas em vez daquela coisa chamada cérebro que nós, seres de Marte, temos.
A fisionomia dos marcianos e das venusianas é diferente, todos sabemos: nós temos algo mais que elas entre as pernas, elas têm algo mais que nós noutros sítios, tudo bem. Mas as diferenças não se esgotam aí: o complicómetro é aquele órgão que as venusianas têm em vez do cérebro masculino. Por vezes podemos pensar que elas têm serradura, vácuo ou farelos dentro do crânio, mas não, é mesmo o complicómetro.
Nada é tão simples que uma mulher não possa complicar; nada é tão complicado que uma mulher não consiga complicar ainda mais. Imagine-se que precisamos de entregar um documento a um homem:
- Chefe, está aqui o papel. - entrega uma folha ao chefe, escrita até meio, com um rabisco à mão no final a que chama rubrica.
- Óptimo Manel, muito bem. Mas olha lá, isto tinha que ser assinado como no B.I... E eram duas cópias.
- Desculpe, chefe. Vou já imprimir outro.
- Ah, deixa isso, já fotocopio. Vai mesmo assim.
- De certeza, chefe?
- Sim, 'tá bom! Vai fazer outra coisa qualquer.
E trabalha em tudo o resto que tem a fazer no dia. Sai às cinco, meia hora antes do tempo, bebem uns copos todos juntos, chefe e funcionários, todos ficam felizes, vão cedo para casa, jantam com as mulheres e filhos, dão passeios a pé em família até à hora de dormir. Porque 'tava tudo bom.
E é esta a frase mestra, que abre todas as portas, mas só aos homens: 'tá bom. A frase mágica que indica que podemos parar de torturar-nos a aperfeiçoar uma porcaria qualquer que não serve para nada. Simplificar. Resolver as coisas de forma rápida. Não complicar. Mas uma venusiana, com o seu complicómetro, faz isto:
- Chefe, está aqui o papel. - entrega dezassete folhas à chefe, escritas até ao fim, com um rabisco à mão no final a que chama rubrica.
- Óptimo Manel, muito bem. Mas olha lá, isto tinha que ser assinado como no B.I... E eram sete cópias de tudo e duas cópias extra das páginas cinco, seis, sete, doze e dezasseis...
- Desculpe, chefe. Vou já imprimir outra vez.
- Já agora, formata o tipo de letra para Arial, é mais gira que Times New Roman. Mas põe o tamanho a 11,5, 12 fica muito grande.
- Sim, senhora.
- Ah e põe os parágrafos todos a 1,15 linhas, com avanço de 2 centímetros na primeira linha. Com 0,5 pontos nos parágrafos.
- Mas não estava certo, chefe?
- Não, tens isso a 1,5 linhas com avanço de 1,5 centímetros e 1,5 nos parágrafos. Fica tudo muito igual. Como te digo fica esteticamente mais agradável.
Meia hora depois de perder tempo com mariquices...
- Cá estão as cópias, chefe. tudo arrumadinho. Era assim?
- Isso, Manel, muito bem. Mas tens aqui uma coisa mal...
- Então?
- Tens que rubricar as páginas todas no cantinho, e assinar como no B.I. na última. Vai lá assinar isso.
Dez minutos depois...
- Já está chefe, aqui tem.
- Não! O que é que tu fizeste? A rubrica é no canto superior direito, tu assinaste no esquerdo!
- Mas não é a mesma coisa?
- Claro que não! Isso aí fica feio! Imprime tudo de novo e volta a assinar!
Quarenta minutos depois...
- Cá está chefe, tudo de novo.
- Ah bolas, não vi isto... Não paginaste!
- Era necessário? Isto é para afixar no placard...
- É sempre necessário, menos na cópia do placard e o duplicado do placard. Nas outras todas tem que ter páginas. Faz de novo as que são do arquivo.
Cinquenta minutos depois...
- Cá está chefe, tudo de novo. Demorei mais porque o toner da impressora acabou e tive que pedir outro, tive que preencher o requerimento em duplicado, peço desculpa.
- Fizeste mal, isso já se faz em triplicado desde sexta-feira. Deixa depois uma cópia na minha secretária. Mostra aí as folhas.
- Tudo rubricado, assinado e paginado.
- Não era assim! Tu nunca mais te despachas, não fazes nada bem? Tens que por nas páginas o total, é 1/17, 2/17, 3/17... Não é só pôr os números. Vá de novo! Já estás a sair muito caro à empresa.
A impressora encrava. Fica sem papel. O pobre moço rasga a papelada toda na sala onde o pessoal está, o que está bem e o que está mal, com o ataque de fúria. Deixa tudo por imprimir, desiste, manda por mail à chefe. Não faz mais nada do resto que tem a fazer. Sai às sete, hora e meia depois do tempo, chega a casa, a mulher chateia-se porque acha que esteve nos copos, dorme no sofá. Ninguém aguenta...
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