
No capítulo anterior contou-se o penoso processo de escolha e ida a um restaurante. Mas os problemas mal começaram. Novamente, convém fazer o paralelo entre um jantar de amigos numa tasca e um jantar com a respectiva no restaurante mais caro que encontrámos.
Jantar de homens.
- Então Manel, que há que se coma hoje?
- Leitão assado, secretos de porco preto, febras, sandes de torresmos, carapaus fritos e feijoada de polvo.
- Traz aí um prato de feijão, uma dose de leitão e uma de secretos.
- E para beber?
- Traz um jarro de tinto. O da casa é bom?
- Bebe-se bem. Querem provar antes?
- Deixa, traz o jarro que a gente prova o jarro todo e logo te diz!
A comida demora cinco minutos a chegar. Sobra metade porque as doses são muito grandes. Bebem dois jarros de vinho cada um. O benfica ganha por quatro a zero. Festejam os golos todos, gozam com um velho do Sporting, pagam-lhe um copo no fim, ficam amigos para o resto da vida. Conta: quinze euros. Vejamos agora o jantar romântico:
- O criado nunca mais cá vem... Já estamos sentados há meia hora, passa por nós, e nada. Querido, chama-o!
- Pssst! Se faz favor!
Dez minutos depois, lá vem com as entradas, mas sem a ementa. Outros dez minutos volvidos, vem a ementa.
- Ai, não me apetece nada disto. Na última vez que cá viemos tinham aquele arroz de tamboril, não terão hoje também?
- Não, era prato do dia. Pede outra coisa.
- E tu, já escolheste?
- Já. Quero bife à casa.
- É bom?
- É. E tu, que queres?
- Se não há o tamboril, peço o bacalhau com natas.
- Olha que esse não é grande coisa.
- Ah, mas apetece-me.
Pedem. Meia hora depois chegam as doses. O bacalhau tem espinhas e pelo menos dois dias de estar feito. Parece até daquele congelado, pré-feito, do Continente. A dose é tão grande que dificilmente mataria a fome a uma criança de seis anos.
- E para beber?
- Traga aí um jarro de vinho da casa, se faz favor.
- Desse não gosto, querido. Pede qualquer coisa boa!
E vai dizendo que não gosta até escolher uma coisa qualquer de reserva que sabe ao mesmo que os outros mas custa vinte euros.
- Não gosto do bacalhau. Queres trocar?
- Mas eu também não gosto! Pedi o bife porque queria bife!
- Vá, tu também gostas deste, troca comigo...
Trocam os pratos. Ficam com fome na mesma, pois as doses são pequenas.
- E sobremesa?
- Traga-me aí uma mousse de chocolate. Querida, que queres?
- Ah eu não quero nada, isso depois engorda. Como um bocadinho da tua.
Chega a mousse.
- Deixa-me provar a tua mousse...
- Prova lá. É boa.
Ela prova a mousse dezassete vezes, até já não haver. O homem comeu a primeira colherada. Pedem a conta, o homem paga sessenta euros, vão para casa, e ela comenta:
- O MEU bife estava bom, mas o bacalhau nem por isso. Já a TUA mousse era divinal. Mas escolhe outro sítio para a próxima... Este não era grande coisa. Sempre que TU escolhes o sítio escapamos mal.
Ninguém aguenta!!!
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